Emílio, o eminho

Primeira tirinha do Emílio, o eminho

Primeira tirinha do Emílio, o eminho

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O Sexto Sentido

Muito se critica a superstição da gente simples. Não irei defendê-los, pois a voz narrativa não me dá liberdade para julgamentos e opiniões explícitas. Mas é de se pensar : se esta gente não se apoia em seu universo de sonho e mágica, o que lhe resta para se agarrar na realidade? Talvez seja a escolha mais racional fugir para o mundo de brinquedo. Aquele homem de trás da tribuna, após cantar o que não sabia, começou a pregar o que desconhecia ainda mais: alguma coisa sobre Deus. Dizia que ele era bom, justo e coisas do tipo. Não dizia novidades para os que lá estavam, pois como já foi dito, aquela celebração era a mesma da semana passada.
Estranha era a reação dos que ouviam: aplaudiam e choravam como se estivessem a ouvir a mais boa notícia que já fora divulgada. As crianças dormiam e eram cutucadas pelos pais quando flagradas em tal ato. Resmungavam, enchiam os olhos de água e voltavam a dormir. E o ciclo se repetia até o final daquela reunião: flagra, choro, sono.

Recolheu-se algum dinheiro, pouca coisa: nem o suficiente para pagar aluguel e demais despesas daquele lugar a que chamavam templo.

Fizeram uma reza qualquer para terminar a reunião. O homem com o seu traje de sempre agora suado, antes de poder abandonar o local, foi abordado por várias senhoras reumáticas que pediam orações para as dores que achavam incomum para a idade avançada que já ostentavam. Não se conformavam com o tempo e ignoravam o destino comum de todas as mulheres à sua idade. Talvez estas, quando choravam na reunião, choravam por alguma dor, qualquer uma delas, que já fazia parte de seus sentimentos fixos. É irônico como a velhice enfraquece em nós os sentidos que nos acompanharam a vida toda: a visão fica embaçada, os ouvidos se confundem, os cheiros são todos ruins, os gostos insuportáveis e a pele enrugada torna grosseiro o mais fino tecido. Entretanto, um sentido novo e constante resolve despertar quando todos os demais falham: o da dor. Sentar torna-se cansativo e o dormir doloroso. Não há conforto que alivie. Não há sentido mais aguçado que o da dor constante.

O pastor orou e, aliviado pelo placebo distribuído, foi para casa que ali mesmo atrás do pequeno salão alugado ficava.

Cotidiano

Acordou com o microondas alertando que algum composto alimentício requentado estava pronto para o seu desjejum. O lado vazio da cama era a prova de que a mulher já acordara para preparar o seu manjar dos mortais: algum pão comprado pela tarde e que agora prontamente, às seis da manhã, viraria alguma coisa com margarina diluída por cima.

Estava a acostumado a este tipo de domingo em que, numa sequência mecânica, acordava mulher, depois ele, e por fim os três filhos. Escovou os dentes com aquilo que lhe restava de uma escova de dentes, vestiu o terno que era seu como a pele: acompanhava-o aos enterros, festas, filas de banco, atendimentos do governo e onde quer que fosse necessária alguma cobertura de pele com aparência superior a de um trapo velho.

Gritou pelas crianças que apareceram com os corpos e cabelos desgrenhados da noite de sono e da vida. Comeram o pão, pegaram a porção de papel que lhes cabia: ele a bíblia de capa preta e o caderno velho, a mulher a bíblia e a bolsa, o filho mais velho a bíblia e um caderno velho, o do meio a bíblia apenas e a menina mais nova uma boneca a quem chamava Marina. É estranho como temos que recorrer ao pronome “quem” e não “que” quando nos referimos a certos objetos de estimação, por exemplo as bonecas: não possuem vida própria, inanimadas, inúteis ao grandes, amigas dos pequenos. Dão a estes o melhor conselho que se pode dar que é o conselho silencioso, livre de culpa e de responsabilidades.

Entraram no cubículo onde outras pessoas já os esperavam: velhos, mancos, doentes, feios, pobres e acidentalmente um homem de  algumas posses com suas filhas de beleza que não passava de cuidado privado aos demais. Não eram belas, mas o pouco de aparência que lhes fora presentado não tinha sofrido muitos danos como a dos outros. Loiras, limpas, alimentadas e com roupas compradas ainda este ano: é dessa beleza que falo.

A família ainda com o cheiro de mofo, da margarina do pão amanhecido e com o hálito de café era esperada no lugar como a convidados de honra. Mas é engano pensar deles dessa maneira: eram na verdade anfitriões que chegavam sempre depois dos primeiros convidados. O homem foi sentar-se atrás do lugar que era seu: uma tribuna de madeira com um pano bem limpo que era, como se supunha, ornamento para a madeira velha e suja, recém lavado e alvejado. A mulher escolheu a primeira fileira dos bancos para se abrigar com a sua filha, os rapazes foram para um canto em que uma guitarra e uma bateria se apertavam. Aos poucos o lugar se encheu e começaram a celebração do culto que era o mesmo da semana passada, e que seria o mesmo da próxima semana, a menos que fosse incomodado por um velório ou casamento.

Uma série de cânticos religiosos com métrica bem elaborada, léxico arcaico dos primeiros missionários, e acompanhamento de guitarra e bateria insuficientes, começaram a ser entoados. Vozes pigarreadas, gritadas, silenciosas, analfabetas: todas juntas nesta celebração que era como um gemido de sofrimento para um inferno terrestre que só o céu impossível remediaria ou a morte aliviaria. Choravam neste ato. De alegria, de raiva, de angústia? Estranhamente choravam pelo primeiro motivo: eram felizes com o que tinham pois não sabiam o que era ter mais.