* Conforto
Ao chegar à concessionária, fez as consultas que não precisava fazer, pois já tinha bem em mente qual seria a sua escolha. Mesmo gostando de ostentar aquilo que tinha de melhor, alguma moral sua, provinda não sei de que canto obscuro de seu poder, fez com que ele não dissesse sua escolha no primeiro instante. Que queria o melhor e mais caro que ali vendia era certo, mas este resquício de virtude obrigou-lhe a uma representação teatral de um suposto interesse em outros modelos mais modestos que estavam à venda.
Cansou logo daquele teatro e revelou qual seria a sua compra. O vendedor arregalou os olhos, admirado com a aquisição que aquele senhor fazia e, ao mesmo tempo, surpreendido pela futura comissão que tal negócio traria ao bolso desse representante de loja.
Outros detalhes nessa história são irrelevantes: modelo do carro, burocracias, documentos pedidos e respectivas complicações para que o veículo fosse retirado do local em que estava exposto. Para que tenha algum efeito, é necessário que o leitor apenas possua ciência de que, numa loja de automóveis importados, o comprador dessa história entregou uma quantia astronômica de dinheiro para comprar o carro mais caro que estava à venda.
Ciente do conforto que teria ao pilotar aquela máquina saiu pelas ruas daquela metrópole. Parou num primeiro farol a menos de 100 metros de distância, noutro à distância equivalente e assim sucessivamente. Fechou os vidros quando um “rapazinho com trejeitos de bandido” parou em um desses semáforos. Ligou o som. Desligou o som. Deu passagem à uma ambulância, dispensou um vendedor de doces e outra moça que fazia propaganda de um novo empreendimento imobiliário daquela região nobre. Buzinou para uma moto que passou rente à pintura.
Uma garoa fina começou a cair e, deixando toda a etiqueta pluviométrica de lado, converteu-se logo num temporal. Como de praxe, as ruas começaram a se entupir de carros e este era só momento inicial: de carros o entupimento passou aos bueiros intumescidos de lixo até que a rua virou um rio ou vice-versa.
Apavorado no carro o homem ligou o ar-condicionado. Não tinha a sensação de ser só mais um ingrediente boiando naquela sopa de metal, lixo, gente e asfalto: gozava do melhor daquilo que pode oferecer o conforto.
Publicado em janeiro 21st, 2010 por Thiago Bomfim. Categorizado como Crônicas.
* O templo
Acordou cedo. Como fazia em todos os dias de culto, tomou o banho, fez a barba e vestiu a sua melhor roupa: um belo terno, combinado a uma gravata cujo nó fora feito automaticamente, como se essa tarefa fosse tão habitual como a escovação dentária de todos nós.
Pegou uma bolsa com todos os artigos religiosos que usaria na celebração. Foi em jejum ao local de adoração e com a maior pressa do mundo – afinal, um atraso seria imperdoável e o mestre não era muito misericordioso para com aqueles que não chegavam à cerimônia na hora combinada.
Partiu com o carro, seguindo religiosamente pela rota que fazia em dias de celebração. Algum leitor atento pode dizer que estou sendo redundante por acrescentar o advérbio “religiosamente” num texto que narra uma rotina de uma pessoa que está a caminho de um culto. Contudo, é extremamente necessário o acréscimo, assim como naquelas afirmações que tantos católicos por aí vociferam, sempre seguidas de um “praticante”.
Depois de passar por avenidas que conduziam outros fiéis aos seus respectivos templos, chegou por fim ao imponente templo de pedra cinzenta, que era alto e bem frequentado assim como outras instalações de adoração coletiva daquela cidade.
Passou o crachá pela catraca, foi de elevador ao quinto andar, retirou da bolsa seus instrumentos de louvor – um potente notebook Lenovo e um caderno Tilibra de capa dura – e começou a sua rotina diária de adoração, com a duração exata de oito horas.
Publicado em outubro 28th, 2009 por Thiago Bomfim. Categorizado como Crônicas.
* O passarinho
Ricardo era um esquerdista nato. Reivindicava seus direitos e também o dos outros, mesmo acreditando que a questão dos direitos não era a mais justa das invenções.
Contribuía com as causas ambientais e assinava a Caros Amigos. Falava mal do governo do estado, mas elogiava os avanços que ocorriam no país, graças aos programas sociais de inclusão digital e supermercadológica do presidente Lula. De uns tempos para cá começou a fazer xixi no banho, apregoando essa nova filosofia de vida aos quatro cantos do mundo.
Certo dia um amigo desavisado deu a Ricardo um passarinho preso numa gaiola de madeira. O bichinho era lindo, cantava que era uma beleza e, de certa forma, correspondia à todas as afetuosidades do novo dono.
Os cuidados que a ave recebia de Ricardo eram irrepreensíveis: alpiste novo todos os dias, pedaços de frutas frescas todas as manhãs, limpeza periódica da gaiola e água fria para banhos nos dias muito quentes. Segundo se pregava no mundo dos canários, o paraíso aviário era daquele jeito: comida à vontade, donos cuidadosos. Só faltava uma coisa à esse céu, um canarinho do sexo oposto, mas ao canário dessa história isso era irrelevante, já que jamais havia provado as delícias do poleiro sexual.
Ricardo era feliz com o seu amigo plumoso, mas se sentia um hipócrita por manter preso o animal, contrariando todos os seus ideais de liberdade e justiça que há tempos defendia em uma das inúmeras rodas de discussão das quais participava. Sentia muita vergonha por ter uma gaiola na sua casa. Quando recebia visitas, escondia o pássaro nos fundos de casa, para evitar questionamentos de seus companheiros de discussão e militância.
Levou essa vida dupla por muito tempo, até que se cansou. Numa manhã de sábado resolveu dar liberdade ao Boris, que a essa altura já tinha nome. Abriu a porta da gaiola. A ave não entendeu e continuou lá dentro a levar a sua vida. Ricardo, impaciente, pegou o animalzinho às suas mãos e o soltou pela janela.
O bicho voou meio desajeitado até o muro da casa vizinha, sem entender nada daquele novo tipo de vida, exercitando pela primeira vez a habilidade de voar a longas distâncias. Não teve sucesso. Dois minutos depois, o dono já saudoso viu aparecer um gato vira lata que fez de Boris o seu jantar.
Imagem de House Photography usada sob Licença Creative Commons 2.0.
Publicado em outubro 18th, 2009 por Thiago Bomfim. Categorizado como Crônicas.
* Um golinho de vida
Pergunto aos meus amigos se a cerveja é gostosa. Eu, sinceramente não
lhe admiro o sabor, mas deleito-me na apreciação, na sensação que
causa, do descer suave e gelado que alivia.
A vida me lembra muito a bebida provinda da cevada. Creio que a nossa
quantia minguada de dias é fermentada pelas decepções e amarguras que
visitam até mesmo o mais cauteloso e abastado homem.
O sabor que trava na língua é, de certo modo, acompanhado pelo alívio que a escassez de bons momentos é capaz de trazer.
Publicado em agosto 25th, 2009 por Thiago Bomfim. Categorizado como Goles.
* Remédio para a humanidade
Paulo era uma rapaz problemático. Famoso, desde a infância, por sérios problemas comportamentais. Na escola surrava os companheiros de classe, isso quando comparecia às aulas. Aos treze anos já conhecia cada um dos narcóticos e sabia-lhes todas as sensações, enquanto os seus conhecidos de mesma idade só possuía ciencia da existência de certas drogas pela menção que delas foram feitas em palestras educativas no colegio.
Na juventude, o rapaz já havia assaltado algumas poucas lojas do bairro e uma da região central. Ainda na mesma época, Paulo fora achado no meio fio dormindo na companhia de ratos e cães, convivência extremamente pacífica, preciso avisar, já que os cães atuam como protetores incondicionais dos roedores, mantendo os gatos sempre à distância e, ao mesmo tempo, servem de cobertor para o frio da solitária ressaca de Paulo.
Por negligência ou por simples sorte, não se sabe, todas as aventuras do rapaz corriam com sucesso, sem intervenções de autoridades policiais ou eclesiásticas. Mas, como se exige de um necessário clímax, Paulo, incendiado pelos calores e reações de alguma testosterona que resolvera contrariar toda a sorte de maltrato que aquele corpo sofrera, resolveu estuprar uma mocinha que, na madrugada, voltava tranquilamente bêbada de um baile funk.
Presa fácil, estonteada pelos efeitos do concentradíssimo álcool, portando quantidade insignificante de roupa e andando sozinha numa rua deserta: “um presente dos céus!”, admirou Paulo, profundamente grato por aquele petisco que parecia vir numa bandeja de Deus.
Não é necessário retratar todo tipo de diversão que o bêbado teve naquela noite em meio a caixas de papelão, cães, ratos, sujeira e retalhos. Adiantemos para a parte da prisão desse corpo e o enterro do outro. A moça, ou melhor, a defunta, ao meio dia já recebia as honras num cemitério do outro lado da cidade, enquanto aqui, na região central, o mendigo descansava atrás de grades numa cama feita de homens de mesma origem e educação.
Constataram, depois de alguns meses, com a ajuda de advogados e entrevistas a familiares que o verdadeiro problema de Paulo era psicológico. Foi levado então a uma daquelas clínicas de tratamento, após algumas entrevistas com um renomado doutor de loucos do qual não se teve notícias depois. Paulo chegava acompanhado de um diagnóstico: “Sofre de humanidade aguda. Recomenda-se isolamento. Tratamento: educação escolar, convívio familiar saudável, um emprego regulamentado pela CLT”.
Imagem de Jessica Bee usada sob Licença Creative Commons 2.0.
Publicado em agosto 16th, 2009 por Thiago Bomfim. Categorizado como Crônicas.
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