Monthly Archive for março, 2010

Pedro pedra no sapato

“O ramo imobiliário anda bem. Anda tão bem que o complemento “imobiliário” não lhe combina. Vende-se casa e apartamento como se vende banana nanica na feira”. Era desse modo que Paulo introduzia a reunião com seus subordinados.

Os trabalhadores reclamavam do salário, da distância, da comida e de tudo que lhes vinha à mente: filhos, esposas, vira-lata…

-Contamos com o apoio de vocês para que os negócios continuem indo bem. Melhor do que uma boa remuneração é um emprego sólido, duradouro, numa companhia estável – discursou Paulo.

Aplaudiram automaticamente, contentes e contidos por um discurso bem ensaiado. Pedro pediu para falar com o engenheiro em particular:

- Gostou do meu discurso, Pedro?

-Bonito, seu dotô. Mas mermo bonito, ele não me ajuda: preciso mermo do aumento, dotô.

- Ora, Pedro! Como podes ser tão egoísta! Terei que aumentar os vencimentos dos outros pedreiros, se aumentar o seu.

-Mas não é justo, seu dotô? Todo mundo aqui ganha tão pouco.

- Justo até é, mas assim a empresa vai à falência. E não é melhor ganhar pouco do que ganhar nada, Pedro?

-Mas seu Paulo… Parece que o que eu ganho docês eu gasto tudo aqui mermo. Pago duas condução e ocês me dão dinheiro só pra uma!

-É a política da empresa. O contrato diz “auxílio transporte” e não “transporte”. Por que você não vem de ônibus?

-Demoro três horas de ônibus. De trem é só duas hora.

-Ora, Pedro! Não lestes o contrato? Só pagamos uma.

-Não sei lê, seu dotô.

-Tudo bem, Pedro. O próximo acordo coletivo é no semestre que vem. Aguarde até lá para que a empresa revise seus vencimentos e benefícios, ok?

-Mas a barriga dos meus fio não vai esperar, dotô.

-Nem o progresso, Pedro! Vá trabalhar um pouco. Temos prazo para a entrega do condomínio.

Rotina de um ancião

Cícero acordou bem cedo, como era o seu costume. O sol acordava inchado e vermelho, denunciando o dia quente que os céus preparavam como um presente de péssimo gosto para a Terra.

Acostumado ao silêncio matinal da casa, calçou o sapato de couro sofrido, botou enxada nos ombros e seguiu para a plantação.

Quatro horas depois, às oito da manhã, seu estômago, com espantosa precisão, alertava que já era a hora do desjejum. Estranhou que Rute, sua mulher, ainda não o tivesse chamado para o ritual das manhãs, celebrado com pães, mandioca e um café travando de forte. Mas que mal havia! Era domingo! Que dormisse mais; afinal a noite anterior reservara à Rute fortes dores no estômago e, por consequência, um sono tardio.

Ao meio dia, aquele sepulcral silêncio havia se prolongado demais. Cícero, com temor e tremor, correu à cama onde a esposa morta e fria silenciava. Sentou-se numa cadeira ao canto e, com a face repousadas entre as mãos, chorou.

Sabia que o momento viria, cedo ou tarde, mais pra cedo que pra tarde. Mas não cogitava que viesse tão silencioso e sorrateiro, disfarçado em rotina, pondo frio um corpo febril em dia tão calorento.

A natureza selvagem

Bagagem Um desejo selvagem é despertado pela música do vento que me convida às coisas simples. Um primitivo som que, ignorando toda a barreira das pedras verticais moldadas de concreto, ecoa avassaladoramente invadindo meus ouvidos.

As águas cantam e correm no seu balé sensual rumo ao infinito destino me convidando para retornar a elas, pois sou só corpo emprestado ao mundo. E o mundo é casa emprestada ao meu corpo, mas esta massa de músculos, ossos e alma sabe que não dorme bem como hóspede, em cama dos outros, longe de casa.

Os animais uivam, coaxam, serpenteiam e banham-se da simples e confortável existência e convidam-me ao mesmo ritual. E eu aceito! Vou-me para a natureza!

Mas terminarei antes a prestação do meu carro, a faculdade… Esperarei que o meu chefe me dispense das minhas atividades e me pague tudo o que me é de direito. Quitarei as dívidas do cartão de crédito, dominarei o piano, assistirei os filmes que estão em cartaz. Viajarei a Nova York, visitarei os parentes do nordeste e do sul. Roupas novas: afinal o inverno está logo aí! E, se vou para a natureza, comprarei malas de couro resistente. São caras, mas parcelarei no cartão ou darei um cheque para 30 dias.

O chamado da selva ecoa! Atenderei nas próximas férias de final de ano, Pra poder viajar com o décimo terceiro.