“O ramo imobiliário anda bem. Anda tão bem que o complemento “imobiliário” não lhe combina. Vende-se casa e apartamento como se vende banana nanica na feira”. Era desse modo que Paulo introduzia a reunião com seus subordinados.
Os trabalhadores reclamavam do salário, da distância, da comida e de tudo que lhes vinha à mente: filhos, esposas, vira-lata…
-Contamos com o apoio de vocês para que os negócios continuem indo bem. Melhor do que uma boa remuneração é um emprego sólido, duradouro, numa companhia estável – discursou Paulo.
Aplaudiram automaticamente, contentes e contidos por um discurso bem ensaiado. Pedro pediu para falar com o engenheiro em particular:
- Gostou do meu discurso, Pedro?
-Bonito, seu dotô. Mas mermo bonito, ele não me ajuda: preciso mermo do aumento, dotô.
- Ora, Pedro! Como podes ser tão egoísta! Terei que aumentar os vencimentos dos outros pedreiros, se aumentar o seu.
-Mas não é justo, seu dotô? Todo mundo aqui ganha tão pouco.
- Justo até é, mas assim a empresa vai à falência. E não é melhor ganhar pouco do que ganhar nada, Pedro?
-Mas seu Paulo… Parece que o que eu ganho docês eu gasto tudo aqui mermo. Pago duas condução e ocês me dão dinheiro só pra uma!
-É a política da empresa. O contrato diz “auxílio transporte” e não “transporte”. Por que você não vem de ônibus?
-Demoro três horas de ônibus. De trem é só duas hora.
-Ora, Pedro! Não lestes o contrato? Só pagamos uma.
-Não sei lê, seu dotô.
-Tudo bem, Pedro. O próximo acordo coletivo é no semestre que vem. Aguarde até lá para que a empresa revise seus vencimentos e benefícios, ok?
-Mas a barriga dos meus fio não vai esperar, dotô.
-Nem o progresso, Pedro! Vá trabalhar um pouco. Temos prazo para a entrega do condomínio.




