Conforto

Ao chegar à concessionária, fez as consultas que não precisava fazer, pois já tinha bem em mente qual seria a sua escolha. Mesmo gostando de ostentar aquilo que tinha de melhor, alguma moral sua, provinda não sei de que canto obscuro de seu poder, fez com que ele não dissesse sua escolha no primeiro instante. Que queria o melhor e mais caro que ali vendia era certo, mas este resquício de virtude obrigou-lhe a uma representação teatral de um suposto interesse em outros modelos mais modestos que estavam à venda.
 
Cansou logo daquele teatro e revelou qual seria a sua compra. O vendedor arregalou os olhos, admirado com a aquisição que aquele senhor fazia e, ao mesmo tempo, surpreendido pela futura comissão que tal negócio traria ao bolso desse representante de loja.

Outros detalhes nessa história são irrelevantes: modelo do carro, burocracias, documentos pedidos e respectivas complicações para que o veículo fosse retirado do local em que estava exposto. Para que tenha algum efeito, é necessário que o leitor apenas possua ciência de que, numa loja de automóveis importados, o comprador dessa história entregou uma quantia astronômica de dinheiro para comprar o carro mais caro que estava à venda.
 
Ciente do conforto que teria ao pilotar aquela máquina saiu pelas ruas daquela metrópole. Parou num primeiro farol a menos de 100 metros de distância, noutro à distância equivalente e assim sucessivamente. Fechou os vidros quando um “rapazinho com trejeitos de bandido” parou em um desses semáforos. Ligou o som. Desligou o som. Deu passagem à uma ambulância, dispensou um vendedor de doces e outra moça que fazia propaganda de um novo empreendimento imobiliário daquela região nobre. Buzinou para uma moto que passou rente à pintura.
 
Uma garoa fina começou a cair e, deixando toda a etiqueta pluviométrica de lado, converteu-se logo num temporal. Como de praxe, as ruas começaram a se entupir de carros e este era só momento inicial: de carros o entupimento passou aos bueiros intumescidos de lixo até que a rua virou um rio ou vice-versa.
 
Apavorado no carro o homem ligou o ar-condicionado. Não tinha a sensação de ser só mais um ingrediente boiando naquela sopa de metal, lixo, gente e asfalto: gozava do melhor daquilo que pode oferecer o conforto.

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