O passarinho

Sad Bird Ricardo era um esquerdista nato. Reivindicava seus direitos e também o dos outros, mesmo acreditando que a questão dos direitos não era a mais justa das invenções.

Contribuía com as causas ambientais e assinava a Caros Amigos. Falava mal do governo do estado, mas elogiava os avanços que ocorriam no país, graças aos programas sociais de inclusão digital e supermercadológica do presidente Lula. De uns tempos para cá começou a fazer xixi no banho, apregoando essa nova filosofia de vida aos quatro cantos do mundo.

Certo dia um amigo desavisado deu a Ricardo um passarinho preso numa gaiola de madeira. O bichinho era lindo, cantava que era uma beleza e, de certa forma, correspondia à todas as afetuosidades do novo dono.

Os cuidados que a ave recebia de Ricardo eram irrepreensíveis: alpiste novo todos os dias, pedaços de frutas frescas todas as manhãs, limpeza periódica da gaiola e água fria para banhos nos dias muito quentes. Segundo se pregava no mundo dos canários, o paraíso aviário era daquele jeito: comida à vontade, donos cuidadosos. Só faltava uma coisa à esse céu, um canarinho do sexo oposto, mas ao canário dessa história isso era irrelevante, já que jamais havia provado as delícias do poleiro sexual.

Ricardo era feliz com o seu amigo plumoso, mas se sentia um hipócrita por manter preso o animal, contrariando todos os seus ideais de liberdade e justiça que há tempos defendia em uma das inúmeras rodas de discussão das quais participava. Sentia muita vergonha por ter uma gaiola na sua casa. Quando recebia visitas, escondia o pássaro nos fundos de casa, para evitar questionamentos de seus companheiros de discussão e militância.

Levou essa vida dupla por muito tempo, até que se cansou. Numa manhã de sábado resolveu dar liberdade ao Boris, que a essa altura já tinha nome. Abriu a porta da gaiola. A ave não entendeu e continuou lá dentro a levar a sua vida. Ricardo, impaciente, pegou o animalzinho às suas mãos e o soltou pela janela.

O bicho voou meio desajeitado até o muro da casa vizinha, sem entender nada daquele novo tipo de vida, exercitando pela primeira vez a habilidade de voar a longas distâncias. Não teve sucesso. Dois minutos depois, o dono já saudoso viu aparecer um gato vira lata que fez de Boris o seu jantar.

Imagem de House Photography usada sob Licença Creative Commons 2.0.

4 Responses to “O passarinho”


  • E por falar em discussões, Thiagão:
    Agora está na moda, no meio universitário, estudantes de jornalismo falarem que “hoje em dia todo mundo ‘se acha no direito’ de ter um blog’, por isso extinguiram o diploma de jornalismo. Pois é só criar um e lá postar suas coisas”.

    Pois bem, é verdade!

    Mas que mal tem, se as “coisas” forem tão boas como essas?

    Parabéns!

  • Como comentei lá no Orkut: vindo de ti o elogio vale demais!

    Abraços e bons shows.

  • Pablo Emanuel

    Thiago, o texto acima é encantador. Em poucas linhas é feito o pacto com o leitor, garantindo um carinho deste pelo Bóris, que apesar de nomeado bem perto do fim ( decisão acertadíssima ), clareou a vida de Ricardo.
    Adorei a vida dupla,as descrições, a discrição.
    Uma coisa, em minha modesta opinião,e este texto seria impecável: eu tiraria o último parágrafo. Não sei se por minha fixação na idéia de que menos é mais, ou por desconhecimento do conteúdo mais profundo de suas palavras ali. Parece-me que ficaria mais congruente com o próprio processo de questionamento do personagem. De qualquer forma, meus genuínos parabéns!

  • Seguindo sugestão do Pablo, editei o último parágrafo.

    Abs!

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