Acordou cedo. Como fazia em todos os dias de culto, tomou o banho, fez a barba e vestiu a sua melhor roupa: um belo terno, combinado a uma gravata cujo nó fora feito automaticamente, como se essa tarefa fosse tão habitual como a escovação dentária de todos nós.
Pegou uma bolsa com todos os artigos religiosos que usaria na celebração. Foi em jejum ao local de adoração e com a maior pressa do mundo – afinal, um atraso seria imperdoável e o mestre não era muito misericordioso para com aqueles que não chegavam à cerimônia na hora combinada.
Partiu com o carro, seguindo religiosamente pela rota que fazia em dias de celebração. Algum leitor atento pode dizer que estou sendo redundante por acrescentar o advérbio “religiosamente” num texto que narra uma rotina de uma pessoa que está a caminho de um culto. Contudo, é extremamente necessário o acréscimo, assim como naquelas afirmações que tantos católicos por aí vociferam, sempre seguidas de um “praticante”.
Depois de passar por avenidas que conduziam outros fiéis aos seus respectivos templos, chegou por fim ao imponente templo de pedra cinzenta, que era alto e bem frequentado assim como outras instalações de adoração coletiva daquela cidade.
Passou o crachá pela catraca, foi de elevador ao quinto andar, retirou da bolsa seus instrumentos de louvor – um potente notebook Lenovo e um caderno Tilibra de capa dura – e começou a sua rotina diária de adoração, com a duração exata de oito horas.




Muito bom o texto.
Parabéns!
Dos 4 textos que encontrei na primeira página, este foi o que mais me chamou a atenção; o motivo? Simples: ele é aquele que mais verdadeiramente dialoga com o leitor, e o faz dando a este total liberdade de “concluir a conclusão”. A “duração exata de oito horas” é um primor, já que, sem ser pedante, diz: ” e aí, leitor?”. O sentimento que tive ao ler a segunda vez – após a primeira ficaria difícil dizer, por se tratar de sentimento em essência – foi de alguma cumplicidade com o enunciador, uma coisa meio similar a ler “Esperando Godot”. “sont les mots qui vont très bien ensemble”. Congrats’ Thiago!
Nussa Tiago, mandou muito bem! curto seus textos. Abrax!
Brilhante. Tentei comentar mais alguma coisa, mas acho que é suficiente dizer isso.
O “pão” nosso de cada dia.
Como se fosse maior que a vida, não é?