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O templo

Acordou cedo. Como fazia em todos os dias de culto, tomou o banho, fez a barba e vestiu a sua melhor roupa: um belo terno, combinado a uma gravata cujo nó fora feito automaticamente, como se essa tarefa fosse tão habitual como a escovação dentária de todos nós.

Pegou uma bolsa com todos os artigos religiosos que usaria na celebração. Foi em jejum ao local de adoração e com a maior pressa do mundo – afinal, um atraso seria imperdoável e o mestre não era muito misericordioso para com aqueles que não chegavam à cerimônia na hora combinada.

Partiu com o carro, seguindo religiosamente pela rota que fazia em dias de celebração. Algum leitor atento pode dizer que estou sendo redundante por acrescentar o advérbio “religiosamente” num texto que narra uma rotina de uma pessoa que está a caminho de um culto. Contudo, é extremamente necessário o acréscimo, assim como naquelas afirmações que tantos católicos por aí vociferam, sempre seguidas de um “praticante”.

Depois de passar por avenidas que conduziam outros fiéis aos seus respectivos templos, chegou por fim ao imponente templo de pedra cinzenta, que era alto e bem frequentado assim como outras instalações de adoração coletiva daquela cidade.
 
Passou o crachá pela catraca, foi de elevador ao quinto andar, retirou da bolsa seus instrumentos de louvor – um potente notebook Lenovo e um caderno Tilibra de capa dura – e começou a sua rotina diária de adoração, com a duração exata de oito horas.

Remédio para a humanidade

Mendigo e Cachorro Paulo era uma rapaz problemático. Famoso, desde a infância, por sérios problemas comportamentais. Na escola surrava os companheiros de classe, isso quando comparecia às aulas. Aos treze anos já conhecia cada um dos narcóticos e sabia-lhes todas as sensações, enquanto os seus conhecidos de mesma idade só possuía ciencia da existência de certas drogas pela menção que delas foram feitas em palestras educativas no colegio.

Na juventude, o rapaz já havia assaltado algumas poucas lojas do bairro e uma da região central. Ainda na mesma época, Paulo fora achado no meio fio dormindo na companhia de ratos e cães, convivência extremamente pacífica, preciso avisar, já que os cães atuam como protetores incondicionais dos roedores, mantendo os gatos sempre à distância e, ao mesmo tempo, servem de cobertor para o frio da solitária ressaca de Paulo.

Por negligência ou por simples sorte, não se sabe, todas as aventuras do rapaz corriam com sucesso, sem intervenções de autoridades policiais ou eclesiásticas. Mas, como se exige de um necessário clímax, Paulo, incendiado pelos calores e reações de alguma testosterona que resolvera contrariar toda a sorte de maltrato que aquele corpo sofrera, resolveu estuprar uma mocinha que, na madrugada, voltava tranquilamente bêbada de um baile funk.

Presa fácil, estonteada pelos efeitos do concentradíssimo álcool, portando quantidade insignificante de roupa e andando sozinha numa rua deserta: “um presente dos céus!”, admirou Paulo, profundamente grato por aquele petisco que parecia vir numa bandeja de Deus.

Não é necessário retratar todo tipo de diversão que o bêbado teve naquela noite em meio a caixas de papelão, cães, ratos, sujeira e retalhos. Adiantemos para a parte da prisão desse corpo e o enterro do outro. A moça, ou melhor, a defunta, ao meio dia já recebia as honras num cemitério do outro lado da cidade, enquanto aqui, na região central, o mendigo descansava atrás de grades numa cama feita de homens de mesma origem e educação.

Constataram, depois de alguns meses, com a ajuda de advogados e entrevistas a familiares que o verdadeiro problema de Paulo era psicológico. Foi levado então a uma daquelas clínicas de tratamento, após algumas entrevistas com um renomado doutor de loucos do qual não se teve notícias depois. Paulo chegava  acompanhado de um diagnóstico: “Sofre de humanidade aguda. Recomenda-se isolamento. Tratamento: educação escolar, convívio familiar saudável, um emprego regulamentado pela CLT”.

Imagem de Jessica Bee usada sob Licença Creative Commons 2.0.