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Rotina de um ancião

Cícero acordou bem cedo, como era o seu costume. O sol acordava inchado e vermelho, denunciando o dia quente que os céus preparavam como um presente de péssimo gosto para a Terra.

Acostumado ao silêncio matinal da casa, calçou o sapato de couro sofrido, botou enxada nos ombros e seguiu para a plantação.

Quatro horas depois, às oito da manhã, seu estômago, com espantosa precisão, alertava que já era a hora do desjejum. Estranhou que Rute, sua mulher, ainda não o tivesse chamado para o ritual das manhãs, celebrado com pães, mandioca e um café travando de forte. Mas que mal havia! Era domingo! Que dormisse mais; afinal a noite anterior reservara à Rute fortes dores no estômago e, por consequência, um sono tardio.

Ao meio dia, aquele sepulcral silêncio havia se prolongado demais. Cícero, com temor e tremor, correu à cama onde a esposa morta e fria silenciava. Sentou-se numa cadeira ao canto e, com a face repousadas entre as mãos, chorou.

Sabia que o momento viria, cedo ou tarde, mais pra cedo que pra tarde. Mas não cogitava que viesse tão silencioso e sorrateiro, disfarçado em rotina, pondo frio um corpo febril em dia tão calorento.

O templo

Acordou cedo. Como fazia em todos os dias de culto, tomou o banho, fez a barba e vestiu a sua melhor roupa: um belo terno, combinado a uma gravata cujo nó fora feito automaticamente, como se essa tarefa fosse tão habitual como a escovação dentária de todos nós.

Pegou uma bolsa com todos os artigos religiosos que usaria na celebração. Foi em jejum ao local de adoração e com a maior pressa do mundo – afinal, um atraso seria imperdoável e o mestre não era muito misericordioso para com aqueles que não chegavam à cerimônia na hora combinada.

Partiu com o carro, seguindo religiosamente pela rota que fazia em dias de celebração. Algum leitor atento pode dizer que estou sendo redundante por acrescentar o advérbio “religiosamente” num texto que narra uma rotina de uma pessoa que está a caminho de um culto. Contudo, é extremamente necessário o acréscimo, assim como naquelas afirmações que tantos católicos por aí vociferam, sempre seguidas de um “praticante”.

Depois de passar por avenidas que conduziam outros fiéis aos seus respectivos templos, chegou por fim ao imponente templo de pedra cinzenta, que era alto e bem frequentado assim como outras instalações de adoração coletiva daquela cidade.
 
Passou o crachá pela catraca, foi de elevador ao quinto andar, retirou da bolsa seus instrumentos de louvor – um potente notebook Lenovo e um caderno Tilibra de capa dura – e começou a sua rotina diária de adoração, com a duração exata de oito horas.