Cícero acordou bem cedo, como era o seu costume. O sol acordava inchado e vermelho, denunciando o dia quente que os céus preparavam como um presente de péssimo gosto para a Terra.
Acostumado ao silêncio matinal da casa, calçou o sapato de couro sofrido, botou enxada nos ombros e seguiu para a plantação.
Quatro horas depois, às oito da manhã, seu estômago, com espantosa precisão, alertava que já era a hora do desjejum. Estranhou que Rute, sua mulher, ainda não o tivesse chamado para o ritual das manhãs, celebrado com pães, mandioca e um café travando de forte. Mas que mal havia! Era domingo! Que dormisse mais; afinal a noite anterior reservara à Rute fortes dores no estômago e, por consequência, um sono tardio.
Ao meio dia, aquele sepulcral silêncio havia se prolongado demais. Cícero, com temor e tremor, correu à cama onde a esposa morta e fria silenciava. Sentou-se numa cadeira ao canto e, com a face repousadas entre as mãos, chorou.
Sabia que o momento viria, cedo ou tarde, mais pra cedo que pra tarde. Mas não cogitava que viesse tão silencioso e sorrateiro, disfarçado em rotina, pondo frio um corpo febril em dia tão calorento.



